O Comerciante e o Capetinha do Balcão
Por Zéka Netta — O Capivara News
Existe um fenômeno psicológico fascinante acontecendo em muitos comércios.
O sujeito passa anos conquistando cliente. Sorri, parcela, anota fiado, chama pelo nome, pergunta da família, oferece cafezinho… aí, quando finalmente conquista confiança, resolve destruir tudo com a delicadeza de um rinoceronte de patins.
É o famoso empreendedor da autosabotagem gourmet.
O cliente entra na padaria há quinze anos. Comprou pão em chuva, em greve, em pandemia, em inflação e até naquele dia em que o padeiro brigou com a esposa e o pão saiu parecendo tijolo de condomínio popular.
Mas aí chega o momento mágico…
O capetinha sobe no ombro do comerciante e cochicha:
— Vai… pega aquele pão mofado lá do fundo… ele nem vai perceber…
E o comerciante obedece como quem recebeu uma revelação divina.
No outro dia:
— Empurra o salame azedo… corta bem fininho que disfarça…
Depois:
— Manda o sonho sem recheio… o povo tá muito exigente…
E tem ainda quando o cliente pede uma feijoada e o restaurante envia caldo de feijão com folhas de louro... Como se quisesse de fato não o ter mais como cliente, eis que o capetinha sussurrou no ouvido do funcionário: pra quê mandar da panela cheia, manda deste restolho, ele nem vai reclamar, nunca reclama...
E quando o cliente, coitado, resolve reclamar do troco errado:
— Ihhh… olha lá o vagabundo reclamando de cinquenta centavos…
O curioso é que o comerciante acredita sinceramente que o problema é o cliente.
Nunca é o pão verde fluorescente.
Nunca é a mortadela com textura de sabonete molhado.
Nunca é a encomenda esquecida.
Porque existe uma espécie de delírio empresarial onde o sujeito acha que fidelidade significa prisão perpétua.
“Ele sempre compra aqui… então posso relaxar.”
E é exatamente aí que nasce a ruína.
A psicologia explica isso como uma deformação da percepção de valor.
Quando a confiança do cliente vira rotina, o comerciante deixa de enxergar a relação como conquista e começa a tratar como obrigação automática.
O cuidado morre.
A atenção evapora.
O respeito entra em liquidação.
Aí acontece o inevitável:
O cliente vai embora.
E o comerciante, indignado, ainda comenta no balcão:
— O povo hoje não é fiel…
Não, meu consagrado…
O povo apenas não gosta de pagar caro para participar de um experimento bacteriológico.
Cliente fiel não é lixeira emocional de estoque velho.
Se a pessoa volta sempre no seu comércio, ela não está dizendo apenas “gosto do seu produto”.
Ela está dizendo:
“Eu confio em você.”
E confiança estragada fede mais rápido que salame vencido.
No fundo, muitos comerciantes não quebram por crise.
Quebram por pequenas traições repetidas diariamente, achando que ninguém percebe.
Percebe.
O cliente pode até engolir um sonho sem recheio, um pedaço de salame salgado e passando o tempo, a as uele pedaço de pizza crua trazida às pressas, ter de jogar fora o pão que paga caríssimo nos dias de hoje…
Mas dificilmente engole a sensação de ter sido feito de trouxa.
E quando a fama vem, meu amigo…
Nem promoção salva.
Porque o mesmo cliente que indicava seu comércio agora faz propaganda negativa gratuita com mais eficiência que carro de som em bairro pequeno.
Fidelidade não é obrigação.
É conquista diária.
Porque o cliente pode até engolir um sonho sem recheio…
mas nunca engole a sensação de ter sido feito de trouxa.
E tudo começou naquele dia em que o capetinha do balcão sussurrou:
— Vai… vende estragado mesmo…
— Confia…
Só que não.
Zéka Netta
O Capivara News

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