sábado, 9 de maio de 2026

O Comerciante e o Capetinha do Balcão Por Zéka Netta — O Capivara News

 


O Comerciante e o Capetinha do Balcão

Por Zéka Netta — O Capivara News

Existe um fenômeno psicológico fascinante acontecendo em muitos comércios.

O sujeito passa anos conquistando cliente. Sorri, parcela, anota fiado, chama pelo nome, pergunta da família, oferece cafezinho… aí, quando finalmente conquista confiança, resolve destruir tudo com a delicadeza de um rinoceronte de patins.

É o famoso empreendedor da autosabotagem gourmet.

O cliente entra na padaria há quinze anos. Comprou pão em chuva, em greve, em pandemia, em inflação e até naquele dia em que o padeiro brigou com a esposa e o pão saiu parecendo tijolo de condomínio popular.

Mas aí chega o momento mágico…

O capetinha sobe no ombro do comerciante e cochicha:

— Vai… pega aquele pão mofado lá do fundo… ele nem vai perceber…

E o comerciante obedece como quem recebeu uma revelação divina.

No outro dia:

— Empurra o salame azedo… corta bem fininho que disfarça…

Depois:

— Manda o sonho sem recheio… o povo tá muito exigente…

E tem ainda quando o cliente pede uma feijoada e o restaurante envia caldo de feijão com folhas de louro... Como se quisesse de fato não o ter mais como cliente, eis que o capetinha sussurrou no ouvido do funcionário: pra quê mandar da panela cheia, manda deste restolho, ele nem vai reclamar, nunca reclama...

E quando o cliente, coitado, resolve reclamar do troco errado:

— Ihhh… olha lá o vagabundo reclamando de cinquenta centavos…

O curioso é que o comerciante acredita sinceramente que o problema é o cliente.

Nunca é o pão verde fluorescente.

Nunca é a mortadela com textura de sabonete molhado.

Nunca é a encomenda esquecida.

Porque existe uma espécie de delírio empresarial onde o sujeito acha que fidelidade significa prisão perpétua.

“Ele sempre compra aqui… então posso relaxar.”

E é exatamente aí que nasce a ruína.

A psicologia explica isso como uma deformação da percepção de valor.

Quando a confiança do cliente vira rotina, o comerciante deixa de enxergar a relação como conquista e começa a tratar como obrigação automática.

O cuidado morre.

A atenção evapora.

O respeito entra em liquidação.

Aí acontece o inevitável:

O cliente vai embora.

E o comerciante, indignado, ainda comenta no balcão:

— O povo hoje não é fiel…

Não, meu consagrado…

O povo apenas não gosta de pagar caro para participar de um experimento bacteriológico.

Cliente fiel não é lixeira emocional de estoque velho.

Se a pessoa volta sempre no seu comércio, ela não está dizendo apenas “gosto do seu produto”.

Ela está dizendo:

“Eu confio em você.”

E confiança estragada fede mais rápido que salame vencido.

No fundo, muitos comerciantes não quebram por crise.

Quebram por pequenas traições repetidas diariamente, achando que ninguém percebe.

Percebe.

O cliente pode até engolir um sonho sem recheio, um pedaço de salame salgado e passando o tempo, a as uele pedaço de pizza crua trazida às pressas, ter de jogar fora o pão que paga caríssimo nos dias de hoje…

Mas dificilmente engole a sensação de ter sido feito de trouxa.

E quando a fama vem, meu amigo…

Nem promoção salva.

Porque o mesmo cliente que indicava seu comércio agora faz propaganda negativa gratuita com mais eficiência que carro de som em bairro pequeno.

Fidelidade não é obrigação.

É conquista diária.

Porque o cliente pode até engolir um sonho sem recheio…

mas nunca engole a sensação de ter sido feito de trouxa.

E tudo começou naquele dia em que o capetinha do balcão sussurrou:

— Vai… vende estragado mesmo…

— Confia…

Só que não.

Zéka Netta

O Capivara News

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