BAIXAR O SARRAFO: A MAQUIAGEM DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA
Por Zéka Netta
Há uma velha estratégia utilizada por quem não consegue melhorar os resultados: muda-se o critério da avaliação.
Se o atleta não consegue saltar um metro e oitenta, abaixa-se o sarrafo para um metro e vinte.
No boletim, ele aparece como campeão.
Na vida real, continua saltando um metro e vinte.
Foi exatamente essa imagem que me veio à cabeça ao observar as recentes mudanças nas regras de aprovação do ensino médio em diversos estados brasileiros.
O discurso oficial é bonito. Fala-se em combate à evasão escolar, inclusão, acolhimento, recuperação paralela e respeito às dificuldades dos estudantes.
Tudo isso é importante.
Mas existe uma pergunta que parece proibida:
O aluno aprendeu?
Porque uma coisa é oferecer novas oportunidades para aprender.
Outra, completamente diferente, é permitir que ele avance de série devendo seis disciplinas fundamentais e chamar isso de sucesso educacional.
Se um estudante não demonstrou domínio em seis matérias essenciais, em que sentido podemos afirmar que concluiu aquela etapa da educação?
Aprovação não é aprendizagem.
É apenas aprovação.
Imagine um piloto de avião reprovado em seis competências técnicas.
Um engenheiro sem dominar seis conteúdos essenciais.
Um médico que não compreendeu seis disciplinas fundamentais da graduação.
Você embarcaria nesse avião?
Moraria na casa construída por esse engenheiro?
Aceitaria ser operado por esse médico?
Então por que aceitamos isso justamente na educação, que forma todas as outras profissões?
A resposta talvez esteja nos números.
O Ideb não mede apenas desempenho nas provas.
Ele também considera o fluxo escolar, isto é, quantos alunos são aprovados.
Logo, quando aumentam as aprovações, o indicador melhora, mesmo que a aprendizagem permaneça praticamente igual.
É uma conta elegante.
Os gráficos sobem.
Os discursos ficam otimistas.
As entrevistas comemoram.
Enquanto isso, professores continuam enfrentando alunos que chegam às séries seguintes carregando deficiências acumuladas ano após ano.
A pandemia nos deixou uma lição dolorosa.
Milhões de estudantes foram promovidos mediante atividades remotas, trabalhos enviados pela internet e avaliações pouco supervisionadas.
Anos depois, as avaliações nacionais mostraram o tamanho das perdas de aprendizagem.
Agora reaparece a promessa de que uma recuperação paralela resolverá tudo.
Mas fica a pergunta:
Quem garante que os trabalhos foram realmente feitos pelo aluno?
Quem verifica se ele compreendeu o conteúdo?
Quem comprova que aquela recuperação recuperou conhecimento e não apenas uma nota?
Educação não se faz com confiança cega.
Faz-se com avaliação séria.
Porque recuperar significa aprender novamente.
Não apenas preencher um formulário.
Não apenas responder um questionário on-line.
Não apenas cumprir uma formalidade administrativa.
Há uma enorme diferença entre combater a evasão escolar e combater a ignorância.
A primeira enche as salas de aula.
A segunda enche as mentes de conhecimento.
Se precisarmos baixar o sarrafo para que todos consigam passar, talvez o problema nunca tenha sido o sarrafo.
Talvez tenhamos desistido de ensinar as pessoas a saltar.
E uma nação que troca o esforço de ensinar pela facilidade de aprovar pode até produzir estatísticas bonitas.
Mas dificilmente produzirá cidadãos preparados para construir um país melhor.
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