Por Zéka Netta
Eu cresci ouvindo que o brasileiro precisava aprender matemática.
Hoje eu entendo o motivo.
Você vai no mercado achando que o salário continua pequeno… mas descobre que o verdadeiro milagre econômico aconteceu foi com os produtos. Eles entraram numa dieta forçada. Tudo emagreceu. Menos o preço.
O pacote de bolacha virou amostra grátis.
O chocolate agora vem em versão “lembrança afetiva”.
O papel higiênico parece fita crepe premium.
E o café… ah, o café já está sendo vendido praticamente por átomo.
Mas agora resolveram mexer com um patrimônio nacional: a coca-cola.
A lata de 350 ml vai diminuindo discretamente até virar copo de dentista.
A PET de 2 litros virou 1,25 L com aquela conversa marketeira de “nova experiência de consumo”.
Experiência de consumo?
Meu amigo… experiência de consumo é abrir a geladeira e perceber que a garrafa acabou antes do almoço.
O mais bonito da redufração é a criatividade corporativa.
Eles nunca dizem:
“Estamos vendendo menos pelo mesmo preço porque sabemos que você está quebrado.”
Não.
Eles lançam frases elegantes:
— “Novo design ergonômico.”
— “Embalagem moderna.”
— “Mais prática para o dia a dia.”
— “Quantidade ideal para evitar desperdício.”
Desperdício?
O único desperdício aqui é minha esperança no caixa do supermercado.
Daqui a pouco a picanha vai vir em fatias homeopáticas.
O arroz será vendido em cápsulas.
E a margarina virá com uma lupa de brinde.
O brasileiro já nem faz compra. Faz perícia criminal.
Fica comparando embalagem antiga com a nova igual investigador da Polícia Federal.
“Peraí… isso aqui tinha 500 gramas.”
“Agora tem 370.”
“Mas o preço aumentou?”
“Claro.”
“E a embalagem?”
“Maior.”
“Então diminuíram o produto?”
“Sim.”
“E chamaram isso de inovação?”
“Exatamente.”
É o capitalismo freestyle.
Você paga mais… leva menos… e ainda recebe propaganda dizendo que a empresa se preocupa com você.
Daqui a pouco o mercado vai anunciar:
“Agora o ar dentro do pacote está mais leve, sofisticado e sustentável.”
E vai ter gente batendo palma.
O pior é que a população já entrou na fase da aceitação psicológica.
A pessoa pega uma barrinha minúscula, olha resignada e fala:
— “Pelo menos não aumentou tanto…”
Claro.
Não aumentou o preço.
Só diminuíram sua dignidade calórica.
Eu no mercado seguro a nova garrafa e perguntando pro repositor:
— “Moço… isso aqui é refrigerante ou frasco de xarope infantil?”
E o pior é que a embalagem continua gigante.
Metade é plástico, um quarto é marketing e o resto é gás carbônico com trauma econômico.
Daqui a pouco vão vender coxinha “família” do tamanho de ping-pong e chamar de gastronomia consciente.
E sempre com aquele nome gourmet para disfarçar o assalto gastronômico.
Você pede uma coxinha…
vem um projétil empanado de 18 gramas sobre uma tábua de madeira.
A atendente coloca com delicadeza e anuncia:
— “Nossa mini experiência de frango cremoso.”
Mini experiência?
Minha filha… isso aí não sustenta nem a tristeza de um estagiário.
No tempo antigo, coxinha era um compromisso emocional.
Você segurava aquilo quente na mão e sentia que a vida ainda tinha propósito.
Hoje parece munição de airsoft culinário.
E o preço?
O preço vem em escala internacional: R$ 14,90.
Aí inventaram a pior frase da gastronomia moderna:
— “Mas é artesanal.”
Claro.
Porque alguém teve o trabalho manual de diminuir ela até virar bijuteria salgada.
Como sempre já desconfiado que, em breve, padaria chique vai vender:
“coxinha degustação”
E o garçom trará uma migalha numa colher funda enquanto explica as “notas afetivas do frango”.
E assim seguimos.
Num país onde o produto encolhe, o salário evapora e o governo aparece dizendo que o consumo das famílias aumentou.
Também pudera.
Pra matar a sede hoje você precisa comprar duas coca-colas onde antes bastava uma.
O consumo realmente cresceu.
Apenas o conteúdo desapareceu.
"Zéka Netta escreve essas coisas sentado na cozinha, olhando uma garrafa de refrigerante tão pequena que parece ter sido criada para hamster diabético."
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