sexta-feira, 8 de maio de 2026

A Revolução da Lata Minguante ou a Coxinha degustação gourmet - por Zéka Netta O Capivara News

 

Você já ouviu e viu a " REDUFRAÇÃO " , acredito que tem notado diariamente toda vez que vai ao supermercado, com você uma crônica sobre está maquiagem feita a olhos vistos:
 A Revolução da Lata Minguante

Por Zéka Netta

Eu cresci ouvindo que o brasileiro precisava aprender matemática.

Hoje eu entendo o motivo.

Você vai no mercado achando que o salário continua pequeno… mas descobre que o verdadeiro milagre econômico aconteceu foi com os produtos. Eles entraram numa dieta forçada. Tudo emagreceu. Menos o preço.

O pacote de bolacha virou amostra grátis.

O chocolate agora vem em versão “lembrança afetiva”.

O papel higiênico parece fita crepe premium.

E o café… ah, o café já está sendo vendido praticamente por átomo.

Mas agora resolveram mexer com um patrimônio nacional: a coca-cola.

A lata de 350 ml vai diminuindo discretamente até virar copo de dentista.

A PET de 2 litros virou 1,25 L com aquela conversa marketeira de “nova experiência de consumo”.

Experiência de consumo?

Meu amigo… experiência de consumo é abrir a geladeira e perceber que a garrafa acabou antes do almoço.

O mais bonito da redufração é a criatividade corporativa.

Eles nunca dizem:

“Estamos vendendo menos pelo mesmo preço porque sabemos que você está quebrado.”

Não.

Eles lançam frases elegantes:

— “Novo design ergonômico.”

— “Embalagem moderna.”

— “Mais prática para o dia a dia.”

— “Quantidade ideal para evitar desperdício.”

Desperdício?

O único desperdício aqui é minha esperança no caixa do supermercado.

Daqui a pouco a picanha vai vir em fatias homeopáticas.

O arroz será vendido em cápsulas.

E a margarina virá com uma lupa de brinde.

O brasileiro já nem faz compra. Faz perícia criminal.

Fica comparando embalagem antiga com a nova igual investigador da Polícia Federal.

“Peraí… isso aqui tinha 500 gramas.”

“Agora tem 370.”

“Mas o preço aumentou?”

“Claro.”

“E a embalagem?”

“Maior.”

“Então diminuíram o produto?”

“Sim.”

“E chamaram isso de inovação?”

“Exatamente.”

É o capitalismo freestyle.

Você paga mais… leva menos… e ainda recebe propaganda dizendo que a empresa se preocupa com você.

Daqui a pouco o mercado vai anunciar:

“Agora o ar dentro do pacote está mais leve, sofisticado e sustentável.”

E vai ter gente batendo palma.

O pior é que a população já entrou na fase da aceitação psicológica.

A pessoa pega uma barrinha minúscula, olha resignada e fala:

— “Pelo menos não aumentou tanto…”

Claro.

Não aumentou o preço.

Só diminuíram sua dignidade calórica.

Eu no mercado seguro a nova garrafa e perguntando pro repositor:

— “Moço… isso aqui é refrigerante ou frasco de xarope infantil?”

E o pior é que a embalagem continua gigante.

Metade é plástico, um quarto é marketing e o resto é gás carbônico com trauma econômico.

Daqui a pouco vão vender coxinha “família” do tamanho de ping-pong e chamar de gastronomia consciente.

E sempre com aquele nome gourmet para disfarçar o assalto gastronômico.

Você pede uma coxinha…

vem um projétil empanado de 18 gramas sobre uma tábua de madeira.

A atendente coloca com delicadeza e anuncia:

— “Nossa mini experiência de frango cremoso.”

Mini experiência?

Minha filha… isso aí não sustenta nem a tristeza de um estagiário.

No tempo antigo, coxinha era um compromisso emocional.

Você segurava aquilo quente na mão e sentia que a vida ainda tinha propósito.

Hoje parece munição de airsoft culinário.

E o preço?

O preço vem em escala internacional: R$ 14,90.

Aí inventaram a pior frase da gastronomia moderna:

— “Mas é artesanal.”

Claro.

Porque alguém teve o trabalho manual de diminuir ela até virar bijuteria salgada.

Como sempre já desconfiado que, em breve, padaria chique vai vender:

“coxinha degustação”

E o garçom trará uma migalha numa colher funda enquanto explica as “notas afetivas do frango”.

E assim seguimos.

Num país onde o produto encolhe, o salário evapora e o governo aparece dizendo que o consumo das famílias aumentou.

Também pudera.

Pra matar a sede hoje você precisa comprar duas coca-colas onde antes bastava uma.

O consumo realmente cresceu.

Apenas o conteúdo desapareceu.

"Zéka Netta escreve essas coisas sentado na cozinha, olhando uma garrafa de refrigerante tão pequena que parece ter sido criada para hamster diabético."

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