domingo, 26 de abril de 2026

A ORQUESTRA INVISÍVEL

 

A ansiedade que antecede uma Copa do Mundo sempre teve algo de ritual coletivo — uma mistura de fé, superstição e memória afetiva. Mas o que vemos agora parece menos um aquecimento emocional legítimo e mais um roteiro cuidadosamente ensaiado.

A Confederação Brasileira de Futebol celebrou a chegada de Carlo Ancelotti, um nome que carrega consigo a sobriedade dos grandes comandantes, daqueles que não precisam gritar para serem ouvidos. Sua trajetória fala por si: gestão de egos, leitura de jogo, equilíbrio em meio ao caos — exatamente o que o torcedor imagina precisar. Até aqui, a narrativa parece coerente.

A mídia do futebol elogia a contratação, dizem que agora o elenco não será panelinha, 

Mas então, como em uma virada de roteiro mal disfarçada, surge o coro insistente pela convocação de Neymar Jr.. Não mais o menino-prodígio de dribles desconcertantes, tampouco o protagonista incontestável de outrora. O que se vê é uma tentativa de reposicionar uma figura que já não ocupa, de forma natural, o mesmo espaço simbólico dentro de campo. 

Vemos muito no meio artístico o narcísico que não aceita o envelhecer e quer ainda fazer a personagem nova, ou achar-se ainda galã... Neymar está nesta fase, foi sempre induzido que o time joga para ele e hoje acredita que isso é obrigação, a tal ponto de agora seus marketeiros pulverizar em que o clube não o ajudava jogar. 

E é aqui que a crítica se impõe em que Zéka Netta fala o que observa...

Há uma diferença sutil — porém crucial — entre reconhecer a história de um atleta e forçar sua permanência como peça central de um projeto esportivo. Quando essa insistência não nasce do desempenho atual, mas da necessidade de manter acesa uma marca, um rosto vendável, um nome que ainda mobiliza cifras, entramos no terreno da fabricação de relevância. Uma verdadeira máquina de publicidade.

O futebol brasileiro, que já foi sinônimo de espontaneidade e improviso genial, parece cada vez mais capturado por uma lógica de mercado que transforma decisões técnicas em campanhas publicitárias. Não se trata apenas de futebol; trata-se de narrativa, de engajamento, de retorno financeiro. P elogio de que agora o técnico não seria pressionado pelos empresários parece ser um ponto esquecido.

E, nesse contexto, a convocação deixa de ser escolha esportiva para se tornar estratégia de posicionamento.

A sensação é de que há uma orquestra invisível — bem financiada, bem articulada — afinando discursos, distribuindo falas, criando a ilusão de consenso. A opinião pública passa a ser conduzida como plateia, não como participante. E o torcedor, que antes discutia escalações no bar ou na sala de casa, agora consome argumentos prontos, embalados com aparência de inevitabilidade.

Talvez o maior risco disso tudo não seja a presença ou ausência de um nome específico na lista final. O risco real é a perda de autenticidade. Quando o futebol deixa de refletir o mérito e passa a refletir o marketing, o jogo em campo já entra contaminado.

No fim, resta uma pergunta incômoda: estamos montando uma seleção para ganhar uma Copa — ou para sustentar uma narrativa lucrativa até o último apito?

Porque, se for a segunda opção, não estaremos apenas forçando a barra com um jogador. Estaremos forçando o próprio sentido do futebol.

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