O TESTAMENTO DA MONARQUIA
✍🏻 Gabriel Ferraz Martins*
“A classe proprietária ameaçava passar-se toda para a República, seu pai parecia estar moribundo em Milão, era provável a mudança de reinado durante a crise, e ela não hesitou: uma voz interior disse-lhe que um grande dever tinha que ser cumprido, ou um grande sacrifício tinha que ser aceito. Se a Monarquia pudesse sobreviver à Abolição, esta seria o seu apanágio. Se sucumbisse, seria o seu testamento.”
— Joaquim Nabuco
O 13 de maio de 1888 foi a vitória de uma histórica luta pela liberdade, construída pelo protagonismo dos escravizados, pela ação dos abolicionistas e também pela Coroa.
Foi um longo processo. Desde o Império, vozes como a de José Bonifácio defendiam o fim do cativeiro. Mais tarde, o Imperador Dom Pedro II sustentou uma política gradual de emancipação, pressionando a classe política pela aprovação de leis como a do Ventre Livre e a dos Sexagenários.
Nos anos finais da escravidão, a Princesa Imperial Dona Isabel assumiu posição decisiva. Enquanto setores escravocratas defendiam o adiamento da Abolição e indenizações aos senhores de escravos, a Princesa apoiou a libertação imediata e articulou a formação de um Gabinete disposto a realizar a reforma.
Em 13 de maio de 1888, a Lei Áurea foi assinada no Paço Imperial, sendo recebida com celebrações populares em todo o País.
Como registrou Lima Barreto: “Havia uma imensa multidão ansiosa, com o olhar preso às janelas do velho casarão. [...] A Princesa veio à janela. Foi uma ovação: palmas, acenos com lenço, vivas... Fazia sol e o dia estava claro. Jamais, na minha vida, vi tanta alegria. Era geral, era total; e os dias que se seguiram, dias de folganças e satisfação, deram-me uma visão da vida inteiramente festa e harmonia. [...] Era bom saber que a alegria que trouxe à cidade a lei da Abolição foi geral pelo país. Havia de ser, porque já tinha entrado na consciência de todos a injustiça originária da escravidão”.
O advento da República no ano seguinte interrompeu projetos de integração social dos ex-escravizados, deixando incompleta a etapa seguinte da Abolição: a inclusão dos libertos na sociedade brasileira.
O 13 de maio permanece como testemunho da jornada de um povo contra a escravidão e como memória daqueles que, contra o próprio destino político, escolheram ficar ao lado da liberdade.
* Historiador, artista gráfico e voluntário da Pró Monarquia.

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