terça-feira, 26 de maio de 2026

“A geração que desaprendeu a esperar o outro”

 Hoje fiquei olhando para a tela do celular como quem encara uma cidade estrangeira. Tudo parece rápido demais. Atualiza, confirma, aceita, reconhece, autentica. Olha para o celular, afasta, aproxima, não autenticado como a dizer que você não é você e quem decidiu isso foi um algoritmo. Em algum momento percebi que não era apenas tecnologia mudando… era o próprio mundo deixando de esperar pelas pessoas. E talvez envelhecer hoje seja exatamente isso: continuar humano numa sociedade que virou sistema.



Zéka Netta — “A geração que desaprendeu a esperar o outro”

Dizem que os idosos estão ficando para trás por causa da tecnologia.

Mas talvez a verdade seja mais desconfortável: a sociedade correu tão depressa que deixou de caminhar ao lado de quem envelheceu.

Vivemos num tempo em que quase tudo exige aplicativo, senha, reconhecimento facial, confirmação por código, autenticação em duas etapas e atualizações constantes. O mundo deixou de funcionar na lógica da conversa e passou a funcionar na lógica do clique.

E nisso existe uma violência silenciosa.

Porque muita gente que construiu famílias, cidades, estradas, escolas e histórias inteiras agora se vê perdida diante de uma tela que muda mais rápido do que a própria memória consegue acompanhar. O mundo virou fila ou aplicativos...

Não é incapacidade.

É deslocamento cultural.

A geração mais velha aprendeu a viver num mundo concreto: papel, assinatura, balcão, aperto de mão, olho no olho. Hoje, para existir socialmente, é preciso dominar símbolos digitais que mudam quase semanalmente, aplicativos que atualizam toda sua vida bancária e dados pessoais porque a cor do pigmento da logomarca estava um tom abaixo que a anterior e para não dar bug no sistema quem fica bugado é você.

O problema é que começamos a tratar adaptação tecnológica como medida de valor humano.

Quem não entende um aplicativo é chamado de lento.

Quem não consegue acessar um portal vira “desatualizado”.

Quem sente medo diante da tecnologia é tratado como peso social.

Mas poucos percebem o tamanho da humilhação emocional escondida nisso.

Há idosos que sentem vergonha de pedir ajuda para tarefas simples. Outros desenvolvem ansiedade ao precisar usar bancos digitais, aplicativos médicos ou sistemas públicos. Muitos se calam para não ouvir risadas, impaciência ou aquele olhar moderno que diz silenciosamente: “como você ainda não sabe isso?”

A exclusão digital não afasta apenas pessoas da tecnologia.

Ela afasta pessoas da própria dignidade. Da sua identidade...do respeito...

E existe algo profundamente contraditório nisso tudo: nunca estivemos tão conectados… e ao mesmo tempo tão incapazes de esperar o tempo do outro.

A tecnologia deveria facilitar a vida humana.

Mas em muitos momentos ela virou um filtro cruel entre quem acompanha o ritmo e quem foi deixado para trás.

Não se trata de rejeitar o avanço.

O problema não é a inovação.

O problema é transformar eficiência em substituta da empatia.

Porque envelhecer não deveria significar tornar-se invisível.

Talvez o verdadeiro atraso não esteja nos idosos que ainda tentam compreender o mundo digital. Talvez esteja numa sociedade que desaprendeu a explicar sem arrogância, ouvir sem pressa e acolher sem impaciência.

No fundo, o que muitos idosos procuram não é ajuda para mexer no celular.

É a sensação de que ainda pertencem ao mundo.

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Cada idoso tem uma experiência diante de algum aplicativo que mais o irritou que ajudou, conte sua experiência nos comentários...

Crônica de Zéka Netta



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