segunda-feira, 6 de abril de 2026

A enfermaria não tem silêncio

 


A enfermaria não tem silêncio.

Tem pausas.

Pausas entre um gemido e outro. Entre o apito ritmado de um monitor e o ranger de um carrinho de medicação que demora mais do que deveria para chegar. Pausas que não descansam — apenas acumulam espera.

Era o quarto dia de internação quando João começou a contar o tempo não mais em horas, mas em olhares. O olhar cansado da enfermeira que, mesmo exausta, ainda ajeitava o lençol com delicadeza. O olhar perdido do senhor no leito ao lado, que perguntava pela filha como se o tempo tivesse voltado vinte anos. O olhar duro de quem já não espera muita coisa — esse, João reconheceu no próprio reflexo improvisado na tela escura do celular.

A enfermaria estava cheia. Cheia de corpos, de histórias interrompidas, de diagnósticos pela metade. E cheia também de um vazio que não cabia em prontuário: o vazio da ausência.

Era tempo de greve.

Não uma greve qualquer, dessas que passam despercebidas. Era greve daquelas que escancaram feridas antigas — salários atrasados, equipes reduzidas, promessas não cumpridas por um sistema que insiste em funcionar no limite do colapso. No quadro branco ao fundo, onde deveriam estar os nomes da equipe de plantão, havia lacunas. Espaços em branco que diziam mais do que qualquer comunicado oficial.

— Hoje não tem médico fixo — cochichou alguém, como se dissesse um segredo proibido.

Mas não era segredo. Era realidade.

João tinha dado entrada com um quadro que exigia atenção. Não urgente o suficiente para correr pelos corredores, mas grave o bastante para não ser esquecido. E ali estava ele: não correndo, não sendo visto — apenas aguardando.

Na cama ao lado, Dona Celeste segurava um terço gasto. Murmurava orações entrecortadas por tosses secas. Não reclamava. Havia aprendido, ao longo dos anos, que reclamar cansa mais do que esperar.

— A gente precisa ter paciência, meu filho — disse ela, num tom que misturava fé e resignação. — Não é culpa deles.

E talvez não fosse mesmo. Ou talvez fosse de todos e de ninguém ao mesmo tempo.

Porque a enfermaria é o lugar onde os efeitos aparecem, mas as causas ficam distantes — sentadas em gabinetes com ar-condicionado, discutindo números que não gemem, planilhas que não sentem dor, relatórios que não precisam de analgésico.

Na televisão presa no alto da parede, um noticiário falava sobre cortes, ajustes, reformas. Palavras técnicas, limpas, quase elegantes. Ali, no entanto, cada palavra dessas se traduzia de outro jeito: em atraso, em falta, em ausência.

Em gente.

Uma técnica de enfermagem passou apressada, carregando mais tarefas do que braços. Parou por um segundo ao lado de João.

— Desculpa a demora, viu?

Era curioso. Num lugar onde o descaso parecia institucionalizado, ainda existia alguém pedindo desculpas.

João sorriu, sem força.

— Eu sei…

E sabia mesmo. Sabia que aquela mulher não era o problema. Sabia que o médico que não apareceu provavelmente também estava exausto em outro plantão. Sabia que a engrenagem era maior, mais complexa, mais antiga do que qualquer um ali poderia consertar.

Mas saber não alivia.

A enfermaria seguiu seu ritmo irregular. Um paciente recebeu alta — uma pequena vitória. Outro chegou — um novo capítulo de espera. A vida e a doença se revezavam como se obedecessem a uma lógica própria, indiferente às greves, aos governos, às promessas.

Naquela noite, João não conseguiu dormir. Ficou observando o teto, imaginando quantas histórias já tinham passado por aquele mesmo quarto. Quantas pessoas entraram ali com medo e saíram com esperança — ou não saíram.

Pensou na palavra “paciente”.

Talvez venha mesmo de paciência. Mas ali, naquela enfermaria, parecia mais um exercício forçado de resistência. Uma paciência que não escolhe existir, apenas se impõe.

Antes de fechar os olhos, ouviu novamente Dona Celeste:

— Deus não abandona hospital, não.

João quis acreditar.

Porque, olhando ao redor, ficou claro: se há algum cuidado ainda pulsando ali, ele não vem dos sistemas. Vem das pessoas que, mesmo cansadas, mesmo esquecidas, ainda insistem em cuidar.

E isso, no meio do descaso, já é quase um milagre.

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