domingo, 7 de dezembro de 2025

Gilmar, Incitatus, a toga e o silêncio — versão Zeca Neto



Gilmar, Incitatus, a toga e o silêncio — versão Zeca Neto


Calígula nomeou Incitatus para cônsul.

O Senado baixou a cabeça.

O império sorriu.

E Roma entendeu, tarde demais, que o poder não precisa de coerência — só de silêncio.

O gesto não era maluquice.

Era método.

Era mensagem.

Um cavalo não debate, não questiona, não aponta incoerências.

E, às vezes, tudo o que um governante quer é isso: um animal dócil ocupando o lugar onde deveria estar um ser pensante.

Séculos passaram.

Togas mudaram.

A arquitetura ficou mais bonita.

Mas a coreografia continua a mesma.

Hoje, não se leva um cavalo ao Senado.

Leva-se a lei ao estábulo.

E então um ministro, solitário na própria onipotência, decide que apenas um escolhido pode julgar aqueles que usam a mesma toga que ele.

Uma espécie de “controle de qualidade” feito pelo próprio produto.

É aquela velha frase:

“Eu decido quem me julga. E decido também o motivo.”

O Brasil, coitado, assiste.

Zumbilândia institucionalizada.

O país do “deixa assim mesmo, pior não fica”.

Fica.

Porque não se nomeia um cavalo — isso seria escandaloso demais.

Nomeia-se algo mais útil:

o silêncio.

E, com o silêncio, a morte lenta do contraditório.

As democracias antigas sabiam que o poder precisa de coleira curta.

Não por paranoia.

Por experiência.

Quem não coloca limite vira lenda, vira estátua, vira dono da cidade.

Os gregos avisaram, repetidamente:

quando um só detém o direito de falar, a justiça vira oráculo — e não lei.

Sócrates tentou ensinar isso no tribunal.

Não pediu misericórdia.

Pediu razão.

Pediu que os homens continuassem amando o debate.

Foi condenado por ousadia intelectual.

Seu crime?

Pedir explicações.

Hoje, quando alguém tenta tocar nos deuses togados, encontra portões, senhas, filtros, critérios…

Tudo em nome da “ordem”.

Mas que ordem é essa que desaba quando alguém pergunta?

Não é ordem.

É blindagem.

É liturgia do poder servindo apenas ao próprio poder.

Sacerdotes escrevendo o evangelho e proibindo traduções.


Édipo só se cegou depois — quando percebeu que não quis enxergar antes.

A tragédia sempre começa assim:

a cidade prefere o conforto da escuridão à dor da verdade.

Quem pergunta vira inimigo.

Quem questiona vira suspeito.

Quem aponta o óbvio vira subversivo.

E então voltamos ao princípio:

Quando o cavalo virou cônsul, o Senado se calou.

Quando o juiz moderno decide que só uma mão pode tocar nos intocáveis, o povo se cala.

Os representantes do povo de calam... Cadê o Senado ???

O silêncio nunca foi paz.

É sempre aviso.

E estamos, mais uma vez, avisados.

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