O ÍNDIO QUE ELES INVENTARAM
— POR ZÉKA NETTA
Tem coisa que a gente vê e pensa: não é possível que em pleno 2025 ainda tão tentando empurrar essa fantasia pro povo. Mas é possível sim. E a visita do Luciano Huck à aldeia é só mais um capítulo dessa novela antiga, passada e requentada sobre “o índio que eles imaginam”, não o índio que existe.
Porque repare bem: chega lá o apresentador, câmera ligada, produtor cochichando no canto, e a primeira coisa que ele pede é pra turma tirar camiseta, esconder celular, sumir com o que mistura tradição com modernidade, será que esconderam as pickups Hilux? Mas por quê? Porque para a TV — e pior, para muita ONG que vive desse teatro — o indígena só serve se for o personagem do caderno escolar do Paulo Freire da década de 70: sem tecnologia, sem desejo, sem opinião, sem vaidade, sem vida contemporânea. Um “índio imaginário”, desenhado para caber no roteiro deles.
A verdade é que o Brasil moderno não cabe mais nessa fantasia antropológica de documentário com filtro sépia. O indígena de hoje quer iPhone, quer Hilux, quer banheiro de alvenaria, quer tênis de marca. E quer tudo isso porque ele é gente, porque tem desejos como qualquer trabalhador da cidade grande, como qualquer jovem da periferia, como qualquer família que sonha com conforto, dignidade e progresso.
Mas a mídia, ah, a mídia adora um figurino. Adora construir um personagem que não existe: o “guardião da pureza”, o “intocado pelo mundo”, o símbolo folclórico que rende audiência e discurso pronto. E as ONGs idem — porque quanto mais exótica a imagem do indígena, mais fácil justificar projetos milionários e narrativas que não dialogam com o que eles realmente pedem.
O problema é que essa encenação não protege ninguém. Pelo contrário: infantiliza. Congela. Prende os povos originários numa moldura que eles nunca escolheram. Como se modernidade fosse pecado. Como se progresso fosse traição. Como se desejar conforto tirasse deles a ancestralidade. Como se um celular na mão apagasse uma história de séculos.
E aí vem Zéka Netta, eu mesmo, pra dizer:
chega de transformar gente em mascote ideológico.
Quer defender indígena? Comece ouvindo o que ele realmente quer — não o que seu documentário precisa, não o que sua ONG quer vender, não o que seu apresentador quer exibir como troféu social.
Quer proteger cultura? Então pare de tratá-la como museu. Cultura viva muda, cresce, se adapta, se transforma. O indígena não deixa de ser indígena porque anda de caminhonete ou porque usa Instagram. Ele deixa de ser indígena quando o obrigam a representar um papel que não é dele.
Enquanto isso, nos bastidores, a modernidade já corre solta nas aldeias — e graças a Deus. Tem Wi-Fi, tem faculdade, tem empreendedor indígena, tem liderança que lê projeto, edita vídeo, negocia com deputado, administra território. O futuro deles não é uma oca congelada no tempo. O futuro deles é o que eles escolherem viver.
Mas a mídia prefere fantasia. E fantasia, meu amigo, quando é usada pra substituir a realidade, vira mentira.
E mentira, quando se repete demais, vira política.
E política, quando ignora o povo, vira opressão.
Por isso, quando eu vejo alguém mandando indígena esconder celular pra caber na narrativa, eu digo: isso não é respeito. Isso é censura de figurino. É maquiagem social. É transformar pessoa em símbolo — e símbolo em produto.
O indígena não precisa ser “exótico” pra ser respeitado.
Ele precisa ser ouvido.
E pra isso, talvez, quem precise se despir — não de camiseta, mas de presunção — seja a própria mídia.

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