Se Cazuza soubesse… jamais pediria uma ideologia para viver
Por Zéka Netta
Cazuza cantou, em 1988, que queria “uma ideologia para viver”. Um grito de uma geração que se debatia entre a redemocratização e as promessas ainda difusas de liberdade. Mas talvez, se ele tivesse visto os absurdos que hoje se praticam em nome da “ideologia”, teria preferido o silêncio de uma vida sem rótulos.
A esquerda brasileira, que tanto se apresenta como defensora da justiça social, tornou-se uma caricatura de si mesma. O discurso inflamado pelo “povo” não se sustenta quando se olha para os bastidores do poder: privilégios mantidos, alianças espúrias, corrupção sistemática e uma retórica que muda conforme a conveniência.
O escritor George Orwell alertava, em A Revolução dos Bichos (1945):
“Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros.”
Essa frase ressoa como um retrato cruel de partidos e líderes que, enquanto pedem sacrifício coletivo, desfrutam de cargos vitalícios, regalias estatais e uma vida de luxo incompatível com o discurso de austeridade e igualdade.
A hipocrisia em ação
A hipocrisia ideológica se manifesta de várias formas:
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No discurso moralista: condenam a desigualdade, mas concentram riqueza em sindicatos, ONGs e fundos partidários milionários.
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Na prática política: pregam contra o “imperialismo” enquanto negociam com ditaduras autoritárias e silenciam sobre violações de direitos humanos em países aliados.
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Na vida cotidiana: falam em liberdade, mas cancelam, perseguem e rotulam quem ousa discordar.
Aqui a música de Cazuza ecoa com ironia: “O meu partido é um coração partido.” O coração de uma esquerda que se dizia alternativa moral, mas que sangra na incoerência.
O perigo da fé política
O problema não é apenas da esquerda — qualquer ideologia, quando absolutizada, vira seita. Mas no Brasil, o romantismo da esquerda se confunde com messianismo: sempre há um “salvador” que promete redenção histórica. O filósofo Karl Popper, em A Sociedade Aberta e Seus Inimigos (1945), já denunciava o perigo das utopias políticas que, ao tentarem criar o “paraíso”, acabam justificando abusos e autoritarismos.
E aqui surge a pergunta: será que vale a pena viver em função de uma ideologia que promete o futuro enquanto destrói o presente?
Entre Cazuza e a realidade
Cazuza queria uma ideologia, mas também confessava: “Eu vejo o futuro repetir o passado.” Talvez tivesse razão — as ideologias são círculos viciosos que se repetem com novas bandeiras e velhos vícios.
Hoje, a verdadeira coragem talvez não seja aderir a um rótulo, mas resistir a eles. É preservar o pensamento crítico, a liberdade de discordar, e a responsabilidade de agir sem transferir a consciência a um “partido” ou a um “líder”.
O escritor francês Albert Camus dizia:
“A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente.”
E dar tudo ao presente talvez signifique abandonar o desejo por uma ideologia definitiva, e abraçar a complexidade da vida real, onde liberdade não cabe em slogans.
Referências
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Orwell, George. A Revolução dos Bichos. 1945.
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Popper, Karl. A Sociedade Aberta e Seus Inimigos. 1945.
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Camus, Albert. O Homem Revoltado. 1951.
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Letras de Cazuza (1988).

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