terça-feira, 9 de setembro de 2025

"IDEOLOGIA, EU QUERO UMA PRÁ VIVER" - Se Cazuza soubesse!

 


Se Cazuza soubesse… jamais pediria uma ideologia para viver

Por Zéka Netta

Cazuza cantou, em 1988, que queria “uma ideologia para viver”. Um grito de uma geração que se debatia entre a redemocratização e as promessas ainda difusas de liberdade. Mas talvez, se ele tivesse visto os absurdos que hoje se praticam em nome da “ideologia”, teria preferido o silêncio de uma vida sem rótulos.

A esquerda brasileira, que tanto se apresenta como defensora da justiça social, tornou-se uma caricatura de si mesma. O discurso inflamado pelo “povo” não se sustenta quando se olha para os bastidores do poder: privilégios mantidos, alianças espúrias, corrupção sistemática e uma retórica que muda conforme a conveniência.

O escritor George Orwell alertava, em A Revolução dos Bichos (1945):

“Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros.”

Essa frase ressoa como um retrato cruel de partidos e líderes que, enquanto pedem sacrifício coletivo, desfrutam de cargos vitalícios, regalias estatais e uma vida de luxo incompatível com o discurso de austeridade e igualdade.

A hipocrisia em ação

A hipocrisia ideológica se manifesta de várias formas:

  • No discurso moralista: condenam a desigualdade, mas concentram riqueza em sindicatos, ONGs e fundos partidários milionários.

  • Na prática política: pregam contra o “imperialismo” enquanto negociam com ditaduras autoritárias e silenciam sobre violações de direitos humanos em países aliados.

  • Na vida cotidiana: falam em liberdade, mas cancelam, perseguem e rotulam quem ousa discordar.

Aqui a música de Cazuza ecoa com ironia: “O meu partido é um coração partido.” O coração de uma esquerda que se dizia alternativa moral, mas que sangra na incoerência.

O perigo da fé política

O problema não é apenas da esquerda — qualquer ideologia, quando absolutizada, vira seita. Mas no Brasil, o romantismo da esquerda se confunde com messianismo: sempre há um “salvador” que promete redenção histórica. O filósofo Karl Popper, em A Sociedade Aberta e Seus Inimigos (1945), já denunciava o perigo das utopias políticas que, ao tentarem criar o “paraíso”, acabam justificando abusos e autoritarismos.

E aqui surge a pergunta: será que vale a pena viver em função de uma ideologia que promete o futuro enquanto destrói o presente?

Entre Cazuza e a realidade

Cazuza queria uma ideologia, mas também confessava: “Eu vejo o futuro repetir o passado.” Talvez tivesse razão — as ideologias são círculos viciosos que se repetem com novas bandeiras e velhos vícios.

Hoje, a verdadeira coragem talvez não seja aderir a um rótulo, mas resistir a eles. É preservar o pensamento crítico, a liberdade de discordar, e a responsabilidade de agir sem transferir a consciência a um “partido” ou a um “líder”.

O escritor francês Albert Camus dizia:

“A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente.”

E dar tudo ao presente talvez signifique abandonar o desejo por uma ideologia definitiva, e abraçar a complexidade da vida real, onde liberdade não cabe em slogans.


Referências

  • Orwell, George. A Revolução dos Bichos. 1945.

  • Popper, Karl. A Sociedade Aberta e Seus Inimigos. 1945.

  • Camus, Albert. O Homem Revoltado. 1951.

  • Letras de Cazuza (1988).

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