“Os traficantes são vítimas” — o novo evangelho do desgoverno
Por Zéka Netta – O Capivara News
O desgoverno acordou um belo dia e resolveu reinventar o dicionário moral do país.
Agora, segundo o iluminado discurso oficial, traficantes são vítimas dos usuários.
Sim, você leu certo. A lógica é simples — e absurda: quem compra droga oprime quem vende.
É como dizer que o assaltante sofre por causa do medo da vítima, ou que o político desvia verba porque o eleitor o pressiona com votos demais.
A retórica é tão cínica que beira o stand-up.
Mas não é piada — é política de Estado travestida de empatia. Porém empatia aos seus pares.
Enquanto o mundo fala de narcotráfico como problema de poder e corrupção, por aqui tentam transformar o traficante num coitado do sistema, um mártir de esquina com direito a redenção pública.
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A vitimização como instrumento de controle
Não se trata de um deslize verbal. É estratégia discursiva.
A lógica é simples: se todo criminoso for vítima, ninguém mais é culpado.
O roubo é “ato de necessidade”.
O desvio de verba é “redistribuição social”.
A compra de votos é “negociação democrática”.
E o tráfico é “resposta à exclusão”.
É o manual da desculpa perfeita, impresso na gráfica estatal da hipocrisia.
O problema é que, enquanto o discurso amacia o crime, o país endurece para o cidadão comum.
O trabalhador que atrasa imposto vira sonegador; o político que esconde milhões nas cuecas é “mal interpretado”.
É a inversão moral completa: o crime se humaniza, a honestidade vira burrice.
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Narcoestado: quando o poder se olha no espelho e se apaixona pelo próprio cinismo
Enquanto isso, lá fora, os EUA alertam: a América Latina vive o risco do narcoestado.
Mas o que temos aqui é ainda mais perverso — um narciestado.
Um governo tão apaixonado pelo próprio reflexo que prefere maquiar o crime a combatê-lo.
É o narcisismo institucionalizado: o poder se olha no espelho rachado e se acha bonito, mesmo coberto de lama.
E enquanto a elite política posa de salvadora, o tráfico segue operando com licença tácita, os cofres públicos sangram por “emendas de ocasião”, e os discursos humanitários são usados como desodorante ideológico pra encobrir o cheiro do desvio.
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O santo traficante e o demônio eleitor
Nesse teatro tragicômico, o traficante é o “vítima social”, e o eleitor indignado é o “reacionário opressor”.
Quem questiona é acusado de “falta de compaixão”.
Afinal, como ousar culpar alguém que apenas “reage ao sistema”?
Ora, o mesmo argumento serve pra todo mundo — do ladrão de galinha ao ladrão de ministério.
E assim o país vai se acostumando ao discurso da inversão moral,
onde a compaixão se transforma em desculpa e a justiça em teatro.
A palavra “vítima” virou curinga: cabe no traficante, no corrupto, no político com conta offshore e até no empreiteiro preso por engano — o engano de ter sido pego.
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O usuário, sim, é vítima — mas de um sistema que alimenta o crime
O usuário não oprime o traficante. Ele é parte da engrenagem explorada por um mercado que o Estado finge combater e na verdade administra de longe.
Sem política pública séria, sem prevenção, sem estrutura de saúde mental, o usuário é só mais um corpo rentável na estatística — uma peça na máquina que lucra com o caos.
Mas é mais fácil culpar a vítima do que encarar o espelho.
É mais confortável transformar o bandido em mártir do que enfrentar o fato de que o Estado perdeu o controle e agora escreve poesia social sobre a própria incompetência.
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O evangelho da inversão
E assim nasce um novo evangelho:
> “Bem-aventurados os que traficam, porque deles será o reino da justificativa.”
“Bem-aventurados os corruptos, porque deles é o poder.”
“Bem-aventurados os que distorcem, porque deles é o discurso.”
Enquanto o país afunda, o desgoverno escreve parábolas em nome da “humanização”.
Mas não é compaixão. É cálculo.
A vitimização generalizada é a anestesia perfeita: todo mundo com pena, ninguém com coragem.
E o crime, vestido de coitadinho, passa ileso pela multidão vai do batedor de celular ao distribuidor de drogas e pulverizador de fuzis pelas ruelas das favelas, ah esqueci m, não pode, mudaram de nome: comunidades.
Afinal, ninguém prende um anjo caído — ainda mais quando o altar é o próprio Estado.
Amém!
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Zéka Netta – O Capivara News
"Porque até a lama tem espelho."

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