Entre o martelo, o salto e o chão !
por Zéka Netta
Há imagens que doem mais do que um tiro.
Não porque mostram o sangue, mas porque mostram o peso.
O peso da bota sobre a cabeça, o peso da farda sobre a consciência, o peso do silêncio sobre quem assiste.
Naquela esquina de barro e tijolo cru, o policial representa o Estado.
Mas o Estado, naquele instante, parece ter esquecido o que é ser humano.
A cena é antiga — muda apenas o cenário:
na favela, a bota; no bairro nobre, o tapete.
Aqui o suspeito apanha; lá o criminoso é chamado de “empresário”.
O limite entre o policial e o bandido não está na arma —
está em como ela é usada.
Está no olhar de quem atira e no olhar de quem finge não ver.
Onde termina o policial e começa o opressor?
Onde termina o bandido e começa o sobrevivente?
E onde começa o cidadão que, ao ver tudo isso, escolhe o silêncio como refúgio?
Quando o policial pisa, ele não pisa apenas um corpo:
pisa também as promessas de justiça, a dignidade que deveria proteger.
Mas quando o cidadão passa e não se indigna,
ele também pisa — com o peso da indiferença.
O menino que hoje apanha no chão é o mesmo que, amanhã, aprenderá a odiar a farda.
Há um velho ditado que diz: quem bate esquece, quem apanha jamais.
E o policial que hoje pisa é o mesmo que, um dia, foi menino e ouviu que “bandido bom é bandido morto”.
Assim o ciclo se repete, como um relógio quebrado marcando sempre a mesma hora: a hora da violência.
O policial protege o Estado.
O bandido desafia o Estado.
E o cidadão — esse ser cansado e confuso — apenas observa, impotente, torcendo para que o salto não venha em sua direção.
O cidadão fica refém de ambos os lados, fica preso na sua trincheira perdidamente entre o estado corrompido e as facções que corrompem...
Enquanto isso, o Brasil segue dividindo o mundo entre bons e maus,
sem perceber que a linha que separa um do outro é tão frágil quanto o fio de uma algema.
Há quem diga que o policial só cumpre o dever.
Mas qual é o dever quando a dignidade é esquecida?
Há quem diga que o bandido escolheu o crime.
Mas quem escolheu a miséria em que ele nasceu?
E há quem diga que o cidadão nada pode fazer.
Mas quem nos convenceu de que calar é normal?
A cada esquina, uma repetição:
a viatura com o giroflex aceso, a câmera que grava, o povo que comenta.
E ninguém se pergunta o essencial —
quando foi que a humanidade se tornou opcional?
O salto pesa.
O chão geme.
E o país continua fingindo que não sente.
Neste país, o absurdo virou paisagem, e a dor alheia, entretenimento de esquina ou na teatralidade na TV.
Pior quando existe a notícia que juiz de tribunal superior inventa leis para prender indivíduos por comentários no X , no Instagram, no Facebook e nos grupos de WhatsApp... Que prende velhinhas, alguém pelo uso do batom e até inventam viagem não feita, reunião que não teve e manda raptar pessoas no exterior. Quer salto mais ousado que este ? Afinal o exemplo vem de cima e não ao contrário...
O Brasil segue ali, entre o salto e o chão —
sem saber em qual dos dois lados se encontra sua própria alma, e claro com o c* ma mão!
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