segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Entre o martelo, o salto e o chão - O Capivara News

 


Entre o martelo, o salto e o chão !

por Zéka Netta


Há imagens que doem mais do que um tiro.

Não porque mostram o sangue, mas porque mostram o peso.

O peso da bota sobre a cabeça, o peso da farda sobre a consciência, o peso do silêncio sobre quem assiste.

Naquela esquina de barro e tijolo cru, o policial representa o Estado.

Mas o Estado, naquele instante, parece ter esquecido o que é ser humano.

A cena é antiga — muda apenas o cenário:

na favela, a bota; no bairro nobre, o tapete.

Aqui o suspeito apanha; lá o criminoso é chamado de “empresário”.

O limite entre o policial e o bandido não está na arma —

está em como ela é usada.

Está no olhar de quem atira e no olhar de quem finge não ver.

Onde termina o policial e começa o opressor?

Onde termina o bandido e começa o sobrevivente?

E onde começa o cidadão que, ao ver tudo isso, escolhe o silêncio como refúgio?

Quando o policial pisa, ele não pisa apenas um corpo:

pisa também as promessas de justiça, a dignidade que deveria proteger.

Mas quando o cidadão passa e não se indigna,

ele também pisa — com o peso da indiferença.

O menino que hoje apanha no chão é o mesmo que, amanhã, aprenderá a odiar a farda.

Há um velho ditado que diz: quem bate esquece, quem apanha jamais.

E o policial que hoje pisa é o mesmo que, um dia, foi menino e ouviu que “bandido bom é bandido morto”.

Assim o ciclo se repete, como um relógio quebrado marcando sempre a mesma hora: a hora da violência.


O policial protege o Estado.

O bandido desafia o Estado.

E o cidadão — esse ser cansado e confuso — apenas observa, impotente, torcendo para que o salto não venha em sua direção.

O cidadão fica refém de ambos os lados, fica preso na sua trincheira perdidamente entre o estado corrompido e as facções que corrompem...


Enquanto isso, o Brasil segue dividindo o mundo entre bons e maus,

sem perceber que a linha que separa um do outro é tão frágil quanto o fio de uma algema.

Há quem diga que o policial só cumpre o dever.

Mas qual é o dever quando a dignidade é esquecida?

Há quem diga que o bandido escolheu o crime.

Mas quem escolheu a miséria em que ele nasceu?

E há quem diga que o cidadão nada pode fazer.

Mas quem nos convenceu de que calar é normal?

A cada esquina, uma repetição:

a viatura com o giroflex aceso, a câmera que grava, o povo que comenta.

E ninguém se pergunta o essencial —

quando foi que a humanidade se tornou opcional?

O salto pesa.

O chão geme.

E o país continua fingindo que não sente. 

Neste país, o absurdo virou paisagem, e a dor alheia, entretenimento de esquina ou na teatralidade na TV.

Pior quando existe a notícia que juiz de tribunal superior inventa leis para prender indivíduos por comentários no X , no Instagram,  no Facebook e nos grupos de WhatsApp... Que prende velhinhas, alguém pelo uso do batom e até inventam viagem não feita,  reunião que não teve e manda raptar pessoas no exterior. Quer salto mais ousado que este ? Afinal o exemplo vem de cima e não ao contrário...

O Brasil segue ali, entre o salto e o chão —

sem saber em qual dos dois lados se encontra sua própria alma, e claro com o c* ma mão!


#violência #prisioneirosdosistema #arbitrariedade #ditadurasorrateira #quempodemais #saltoechao #botaeodio 



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