Estamos Criando Monstros? O Risco das Sanções e a Retaliação Interna
Introdução
O Brasil vive um momento em que o povo clama por justiça contra corruptos, violadores de direitos e usurpadores do bem comum. Muitos veem nas sanções internacionais — perda de vistos, bloqueio de bens e a aplicação da Lei Magnitsky — um caminho de reparação. Mas é preciso refletir: o que acontece quando figuras com sede de poder, ao perderem privilégios lá fora, decidem descarregar sua frustração aqui dentro? Estaremos criando monstros encurralados que podem se voltar contra nós?
O Olhar Psicológico
Na psicologia política, Hannah Arendt já alertava que regimes autoritários não aceitam limites pacificamente; eles precisam de um inimigo para canalizar frustrações. Autores como Erich Fromm também explicam que indivíduos com fome de poder costumam responder a perdas com agressividade, não com introspecção. Assim, elites sancionadas tendem a projetar sua raiva contra o povo que as rejeita, reforçando mecanismos de medo e submissão.
O Olhar Sociológico
Sociologicamente, Pierre Bourdieu ajuda a entender como o poder se reproduz: elites acumulam capital não apenas econômico, mas simbólico. Quando perdem prestígio internacional, podem buscar reafirmá-lo internamente, radicalizando discursos nacionalistas e reforçando hierarquias sociais. A repressão, nesse contexto, é uma estratégia de sobrevivência. Michel Foucault também lembra que o poder se exerce, sobretudo, pelo controle dos corpos e das condutas — e um regime acuado tende a intensificar esse controle.
O Olhar Político
Politicamente, sanções externas são instrumentos de pressão que funcionam apenas se articulados a forças internas de transformação. Guillermo O’Donnell, ao estudar democracias frágeis na América Latina, mostrou que elites autoritárias acuadas não desaparecem sozinhas: elas precisam ser contidas por instituições sólidas, sociedade civil vigilante e participação cidadã. Caso contrário, usam o isolamento externo como argumento de “defesa da pátria” e aumentam sua centralização de poder. O risco é a retaliação virar política de Estado.
O Olhar Filosófico
Do ponto de vista filosófico, Maquiavel já advertia que governantes que perdem a estima externa recorrem à força interna para manter autoridade. Nietzsche, por outro lado, nos ajuda a entender a lógica da “vontade de poder”: quando frustrada, ela não desaparece, mas procura novas formas de se afirmar. E aqui está o perigo — elites sancionadas podem transformar sua impotência global em violência local. O povo, sem perceber, se torna o campo de batalha da raiva dos poderosos.
O Risco Real
Esse medo não é fantasia. Há registros históricos — da União Soviética de Stálin ao Zimbábue de Mugabe — de líderes isolados internacionalmente que reagiram com brutalidade interna. O que definirá o rumo do Brasil não é apenas quantos vistos ou contas bancárias serão congelados, mas a capacidade da sociedade de resistir às represálias, fortalecer instituições e não cair na armadilha da apatia.
Maquiavel.
Em O Príncipe (1532), mostra que quando governantes perdem poder, prestígio ou estabilidade, tendem a usar todos os meios possíveis para manter-se no comando. E aí entra o ponto maquiavélico: se não podem mais ostentar alianças ou legitimidade no exterior, buscam reafirmar sua autoridade pela força interna — controle, intimidação, vingança.
Em termos simples:
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Para Maquiavel, é melhor ser temido do que amado, se não for possível ser ambos.
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Um líder acuado, sem reconhecimento externo, reforça o medo interno para evitar perder tudo.
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O povo, nesse cenário, corre o risco de virar a moeda de troca: quanto mais a elite perde lá fora, mais tenta se afirmar cá dentro.
O seu medo dialoga exatamente com essa lógica: sanções externas que isolam elites podem deixá-las como “feras enjauladas” que, para não parecerem fracas, voltam sua agressividade contra quem está ao alcance.
👉 Meu medo em raciocinar esta prospecção é maquiavélico no melhor sentido — atento à dinâmica realista do poder, que raramente se move por moralidade, mas por interesse e autopreservação.
O uso do povo como moeda de troca ao poder absoluto
Na lógica maquiavélica de “moeda de troca”. Não é só uma questão jurídica: é vivido como um embate de poder.
🔎 Do ponto de vista maquiavélico:
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Um governante ou líder político que sente o chão ruir sob seus pés tende a transformar sua própria sobrevivência em questão de Estado.
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Quando punido ou julgado, pode acionar narrativas de perseguição, transferindo para o povo o peso da sua luta pessoal.
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Isso funciona como chantagem implícita: “se me derrubam, derrubam também vocês, meus seguidores”.
👉 Ou seja, em vez de assumir as consequências, ele transforma o processo em espetáculo político, tentando converter derrota em força, punição em combustível.
Isso se conecta à ideia da “moeda de troca” que você trouxe: ele sabe que não pode mais negociar prestígio no exterior ou apoio institucional amplo, então busca barganhar com o medo interno — seja o medo de perseguição, de caos ou de ruptura democrática.
Se olharmos por esse prisma, seu julgamento não é apenas jurídico, mas também um palco de poder, onde ele testa até onde pode usar a população como escudo e como trunfo.
Acabamos de testemunhar isso com o julgamento de Jair Bolsonaro no Brasil ilustra bem essa lógica maquiavélica da “moeda de troca”. Diante da perda de legitimidade internacional e das restrições judiciais internas, ele tenta transformar sua própria defesa em uma causa coletiva, apresentando-se como vítima de perseguição e mobilizando sua base para reagir. Essa estratégia desloca o peso das consequências individuais para a sociedade, convertendo punição em narrativa de resistência. Em vez de reconhecer responsabilidades, aposta no medo e na divisão como instrumentos de sobrevivência política.
Conclusão
É justo exigir que corruptos e violadores sejam punidos. Mas precisamos compreender que sanções externas, sozinhas, podem alimentar monstros encurralados. A resposta política, psicológica, sociológica e filosófica aponta para a mesma direção: sem mobilização interna, sem cidadania ativa e sem fortalecimento democrático, esses monstros voltarão sua fúria contra o povo. O Brasil precisa abrir os olhos: a verdadeira vitória não está em vê-los barrados em aeroportos estrangeiros, mas em garantir que nunca mais possam usar seu poder contra nós.
Referências Bibliograficas
ADORNO, T. W.; FRENKEL-BRUNSWIK, E.; LEVINSON, D. J.; SANFORD, R. N. The Authoritarian Personality. New York: Harper & Brothers, 1950.
ARENDT, H. Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1951.
BOURDIEU, P. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
DAHL, R. A. Polyarchy: Participation and Opposition. New Haven: Yale University Press, 1971.
FOUCAULT, M. Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. Petrópolis: Vozes, 1975.
FROMM, E. O Medo à Liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1941.
HOBBES, T. Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 1651.
LEVITSKY, S.; ZIBLATT, D. Como as Democracias Morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
MAQUIAVEL, N. O Príncipe. Várias edições. 1532.
NIETZSCHE, F. Além do Bem e do Mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1886.
O’DONNELL, G. Delegative Democracy. Journal of Democracy, v. 5, n. 1, p. 55-69, 1994.
WEBER, M. Economia e Sociedade. Brasília: Editora da UnB, 1922.

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