quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O Jaleco Antes do Saber...


 O Jaleco Antes do Saber

Há algo profundamente errado quando o jaleco chega antes do conhecimento.

Não é impressão. Não é exagero retórico. É sintoma.

Vivemos um tempo em que o vestibular deixou de ser porta e virou detalhe. A prova, que deveria aferir preparo mínimo para áreas vitais, tornou-se uma formalidade quase decorativa, como aqueles avisos de “uso obrigatório” que ninguém fiscaliza. O que decide não é mais o domínio do conteúdo essencial, mas o enquadramento correto numa engenharia social que confunde reparação histórica com dispensa de competência.

E não se trata de moralismo barato. Trata-se de química básica, de biologia funcional, de raciocínio clínico elementar. Trata-se do tipo de conhecimento que não admite poesia, militância ou boas intenções — porque o corpo humano não negocia com discursos. Ele reage. Ele falha. Ele morre.

Quando alguém entra em Medicina sem demonstrar domínio minimamente aceitável das disciplinas estruturantes, o problema não é o aluno. É o sistema que assinou embaixo. O mesmo sistema que depois se espanta quando o Exame Nacional de Medicina escancara o óbvio: faculdades inteiras incapazes de alcançar nem um terço da nota exigida. Instituições que formam médicos que não reconhecem diagnósticos básicos, erram condutas primárias e tropeçam onde não deveriam sequer hesitar.

Aí o discurso corre para salvar a imagem: “o exame é elitista”, “a avaliação é cruel”, “o problema é a metodologia”. Nunca, curiosamente, o problema é o conteúdo que não foi aprendido.

Há uma ironia cruel nisso tudo. Em nome da inclusão, estamos criando uma nova forma de exclusão: a do paciente que vira campo de treinamento. A do pobre que serve de estatística. A do SUS que recebe profissionais diplomados, porém mal preparados, porque alguém decidiu que cobrar saber era ofensivo.

O resultado é uma medicina de slogans.

De jalecos com causa.

De formandos cheios de discurso e vazios de base.

E enquanto isso, a educação essencial — aquela que sustenta qualquer prática responsável — apodrece em silêncio. Professores desautorizados, currículos diluídos, avaliações flexibilizadas até perderem sentido. O rigor virou palavrão. A excelência, suspeita. O mérito, uma ofensa moral.

Eis o recorte:

Eis o retrato da genialidade institucional.

Uma candidata formada em escola particular de elite, mensalidade na casa dos quatro mil reais, localizada em bairro nobre do Rio de Janeiro.

No vestibular de Medicina da UERJ, desempenho em química: 6,25 de 20.

Tradução honesta: insuficiente.

Classificação geral: 1243ª posição.

Mas eis que entra em cena o milagre burocrático: a política de reserva de vagas que ignora origem escolar, desempenho acadêmico e mérito comparativo — desde que o enquadramento identitário esteja correto.

Resultado? Um salto elegante de mais de mil posições direto para uma das 104 vagas de Medicina.

A ciência respira aliviada.

A meritocracia pede licença para se retirar.

E o vestibular vira peça decorativa.

No fim das contas, não importa o domínio do conteúdo, nem o preparo técnico: o critério decisivo não está mais na prova, mas no formulário.

Um brinde à engenharia social aplicada à medicina.

Porém, o organismo humano continua exigente.

A farmacologia continua implacável.

A fisiologia segue indiferente às narrativas.

Não há política pública que altere a reação adversa de um medicamento mal prescrito. Não há representatividade que substitua o conhecimento de uma dose correta. Não há justiça social que compense um diagnóstico errado.

Quando o sistema baixa a régua demais, ele não se torna mais justo — apenas mais perigoso.

E talvez o maior escândalo não seja quem entra, mas quem permite que se entre sem saber. Porque isso não é inclusão. É negligência institucional com selo de virtude.

No fim, brindam à ciência.

Mas esquecem de estudá-la.

E a conta, como sempre, não fica com o discurso.

Fica com quem deita na maca. 

 — porque na nota, definitivamente, não deu.

Eis que eu sou um que deita na maca quase todas as semanas. 

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