“Guerra nos Morros, Espetáculo nos Palanques — O teatro armado que esconde o problema”
Sentado no início de noite, de sábado, no automóvel de Martha, a condutora de aplicativo que me leva para casa depois de um belo dia com companhias maravilhosas no estúdio de fotografias Elaine Bobtorim, parados a mais de uma hora devido a acidente na BR, tenho a vista giroflex de polícia, bombeiros e ambulâncias, pensei como quem tivesse com vista para o morro em chamas — observo a cena digna de roteiro hollywoodiano: helicópteros, blindados, tiros cruzando favela, gente gritando, fumaça, barricadas — o espetáculo da força do Estado contra a criminalidade. Só que, ao fundo, esquece‑se que o palco já estava montado há muito tempo, e os figurantes dos bastidores estão bem mais tranquilos do que deveriam.
Nesta semana, o Comando Vermelho (CV) foi alvo de uma operação massiva nos complexos da Complexo do Alemão e da Complexo da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro — mobilização de cerca de 2.500 agentes, cumprindo mandados em uma área de milhões de metros quadrados. Resultado? Até agora pelo menos 121 mortos confirmados (alguns relatórios falam de “mais de 150 mortos”). E mais de 80 presos. Boa notícia: sim, precisamos de operações assim. Mas o que se desenha como “grande vitória” tem falhas estruturais graves — e é sobre isso que Zéka Netta vai aqui apontar o dedo.
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1. A operação policial: voz de aplauso
Simples e direto: parabenizo a corporação que se dispõe a ir aos morros, enfrentar fuzis, barricadas, arriscar a própria vida por ordem de prender traficantes e desarticular redes. É isso que realmente importa: a lei e a ordem. E essa operação mostra que o Estado ainda tem pernas pra andar. Num mundo em que muitos desistiram, bravo aos que entraram.
Segundo o governo estadual, a ação foi planejada por mais de 60 dias, com mandados judiciais, drones, viaturas blindadas. O CV, por sua vez, com base territorial forte, atuação interestadual, abastecimento de armas — conforme o relatório da Conselho Nacional de Justiça, após restrições impostas pela ADPF 635, a facção expandiu‑se.
Logo: sim, era urgente. O Estado reagiu.
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2. O teatro político‑institucional: ruídos que incomodam
Agora as partes que incomodam — e bastante.
a) Deputados e ministros: subindo aos morros como se fosse passeio
Enquanto a tropa enfrentava na zona de fogo, vimos parlamentares e ministros pisando nos morros, arrancando cliques para rede social, discursos inflamados, vídeos “eu subi no Alemão” — como se fosse turismo de alto risco.
Por exemplo, integrantes do governo chegaram ao Morro do Alemão depois da operação.
Não nego o direito deles de estar lá, mas quando se pula da imagem e se deixa de lado a engrenagem do planejamento, algo está errado. Vestir colete, dar “oi” à câmera, e colar no palco do conflito — entretanto, não garantir a estrutura logística, o apoio federal, a coordenação — isso vira espetáculo, não governo.
Um deputado discursou remarkando que “o Rio está em guerra” e criticou a inoperância do ministro da Justiça.
b) O governo federal: auxílio negado ou ausente
Aqui está um dos furos mais visíveis. O governador do Rio, Cláudio Castro, afirmou que o governo federal “negou ajuda” – seja blindados, equipamentos — por três pedidos do Estado terem sido recusados.
Mas o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, disse explicitamente que não recebeu pedido formal do Estado para essa operação.
Logo: ou o Estado fez o pedido informal (“ei, vem ajudar”) e o federal alega não ter registro formal — ou nunca fez — de qualquer modo, a mensagem que chega é de: o Estado está só. Isso, num momento de guerra urbana, assume contornos de abandono político‑estratégico.
c) O Judiciário: solturas, ADPF, desmantelamento do cerco
Outro ponto que merece o facho de luz: enquanto a polícia mobilizava esmagadora força, o sistema jurídico e normativo parecia puxar o freio.
– A ADPF 635 (a “ADPF das favelas”), em que o STF impôs restrições para operações policiais em territórios como favelas, é apontada como fator para expansão do crime.
– Um relatório aponta lideranças do Comando Vermelho de outros estados abrigadas no RJ após decisões do Supremo.
– Há situações recentes de decisões de tribunais superiores que mandaram soltar membros de facções.
Então: de um lado, estado firme; de outro, regras, cortes, decisões que parecem favorecer a inércia — ou pior, a criminalidade. Se estivermos em guerra, precisamos todos os instrumentos alinhados. Parece que não estão.
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3. E agora? — A análise que Zéka Netta faz
Vitória policial? Sim. Uma megaoperação dessas mostra que há vontade, há ação. Uma autoridade deve reagir à ocupação territorial da facção.
Vitória completa? Não. O teatro político, a falta de coordenação federal, o Judiciário que impõe limites sem oferecer alternativas, tudo isso mina o potencial da ação.
Algo muito errado? Sim — e aqui é onde o tom fica ácido:
1. Se o governo federal não recebeu pedido formal, foi incompetente ou omisso; se recebeu e recusou, foi negligente. Uma guerra de 2.500 agentes no morro pede cada engrenagem funcionando.
2. Parlamentares e ministros que sobem aos morros como “visitantes de espetáculo” dão imagem de coragem — mas e o preparo logístico, e o apoio às forças que estão lá? Onde estava o “ajude‑o‑Estado” e não apenas “fotografo‑me no morro”?
3. O Judiciário e os marcos legais — tão importantes — não podem virar muro entre a ação policial e o resultado efetivo. Não se combate facção com responsabilidade apenas no chão de tiroteio; política criminal, leis fortes, presídios que funcionem, fluxo de dinheiro cortado, tudo isso faz parte. Senão, é apenas fogo de palha.
4. Se o morro é palco, quem está nos bastidores? Quem financia? Quem lucra? A operação prende fuzil, prende traficante — ótimo. Mas quem desmontará o esquema de abastecimento, de armas, de lavagem de dinheiro? O relatório da CNJ apontou que o CV expandiu‑se após restrições à polícia.
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Que fique claro — apoio total à ação, mas cobro total responsabilidade
Eu, Zéka Netta, apoio a ação policial corajosa, sistemática, firme. Apoio que o Estado faça valer a lei. Mas exijo que toda a engrenagem se alinhe: Executivo federal, estadual, Judiciário, Legislativo. Não basta espetáculo, temos que ter estrutura real.
A violência dos morros não é tragédia isolada: é sintoma de falha sistêmica. A solução não é fotografar o helicóptero ou o deputado no morro com colete — é mandar colete, blindado, legislação, logística, prisão efetiva, cooperação federal, e depois mostrar resultado sustentável.
Se não for assim, corremos o risco de repetir o ciclo: onda de violência, megaoperação, aplausos, recuo, reocupação. A facção volta. A política espera. E a comunidade continua à mercê.
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