segunda-feira, 24 de novembro de 2025

“A JUVENTUDE QUE QUER MUDAR O MUNDO, MAS NÃO LEVANTA O PRÓPRIO COBERTOR”

 


“A JUVENTUDE QUE QUER MUDAR O MUNDO, MAS NÃO LEVANTA O PRÓPRIO COBERTOR”

(por Zéka Netta)

Outro dia ouvi a frase decretada em tom de apocalipse:
“A juventude está contaminada!”

E olha… eu até tentei discordar.
Quis acreditar que era exagero, pessimismo, coisa de gente amarga.
Mas bastou entrar nas redes sociais por dois minutos para mudar de ideia.

Porque a juventude anda mesmo contaminada, sim —
não por ideais, mas por performances.

O menino tem dezessete anos, cabelo colorido, opinião forte sobre geopolítica, macroeconomia e luta de classes…
mas não sabe localizar o lençol dentro do próprio armário.
Acha que “dobrar roupas” é opressão capitalista e que “organizar o quarto” é uma forma discreta de fascismo doméstico.

Se você duvida, é só entrar na casa deles:
um ambiente que grita, suplica e implora por um pastor de almas ou um bombeiro civil.
O tapete parece que criou vida própria, a mesa tem restos de lanche de 2022 e a cama ostenta um design contemporâneo chamado “fiz hoje, mas parece que já faz três dias que não arrumo”.

Mas basta abrir um debate sobre desigualdade social…
e o jovem vira celestial, iluminado, engajado,
um pequeno Che Guevara com Wi-Fi.

Ele quer mudar o mundo.
Quer reconstruir o sistema.
Redesenhar a civilização.
Mas, por alguma razão misteriosa,
não começa pelo próprio quarto.

E, veja bem, eu não culpo só eles.
A culpa é compartilhada com uma fauna curiosíssima que floresceu nos últimos anos:
os adultos travestidos de adolescentes,
os militantes Nutella,
os personagens públicos que confundem causa com espetáculo.

Tem homem de quarenta se filmando com voz fina e slang de adolescente, dizendo “eae, meu povooo, tamo juntoss” enquanto imita uma foca militante.
Tem mulher adulta entrando em piscina de Nutella para “conscientizar” a juventude sobre empatia.
Tem político que passa o ano inteiro dormindo em comissão, mas na véspera do Dia da Consciência Negra arruma uma briga performática na rua — aquela briga teatral, com câmera no ângulo certinho — só pra ganhar manchete.

E o jovem, coitado, cresce achando que isso é engajamento verdadeiro.
Acredita que lacração é pensamento crítico, que repetir discurso é autonomia, que “viralizar” é o mesmo que “argumentar”.

Ele diz:

Eu? Manipulado? Jamais! Eu penso por mim mesmo!

E fala isso enquanto repete a mesma frase que ouviu do influencer de Nutella e do professor militante que acha que sala de aula é extensão do diretório estudantil.

Basta perguntar:

Mas por que você acredita nisso?

Ele não sabe.
Mas repete.
Repete com fé.
Repete com alma.
Repete como se fosse um mantra sagrado do algoritmo.

E se você questiona…
é você quem vira “gado”.

Sim.
O garoto que nunca venceu a luta contra o próprio cesto de roupas sujas
acha que domina as engrenagens secretas do poder global.


A verdade é simples:
não é que a juventude esteja contaminada — ela está sobrecarregada de narrativas prontas e subnutrida de pensamento próprio.

Quer descontaminar?
Fácil:

Comece pedindo pra arrumar o quarto.
Quem aprende a colocar cada coisa em seu devido lugar
talvez descubra que a cabeça funciona do mesmo jeito.

Porque, no final, mudar o mundo é lindo.
Mas começar dobrando o cobertor é um avanço civilizatório.

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